Exposição de pintura – “Estabelecer a imanência”

 

Ricardo Petterman Laires,  o músico de emoções evocadas na tela

 

A pintura de Ricardo Laires evoca uma ânsia libertadora, que também contagia e liberta quando a olhamos.

Tendo atingindo a plena maturidade da sua personalidade artística, Ricado Laires persiste numa busca contínua para o sentido para a vida.

Só de olharmos as suas obras sentimos essa dimensão de procura psicológica, social, filosófica, numa cúmplice continuidade entre a emoção criativa e as tintas que cola na sua pintura, fazendo corpo com ela, exteriorizando-se, como que materializando as ideias que quer evocar, quase em relevo por vezes e sem limites distintos entre o seu mundo interior e o outro, o mundo que nos envolve, cá fora.

 

É uma arte feita de contrários e de contrastes,  provocadora por um lado quase suave por outro, expressão de uma luta interior onde os contrários se reconciliam e unificam num nível superior.

 

Ricardo Laires pinta memórias até que a memória seja o esquecimento de tudo, pinta sonhos e talvez emoções e ainda um arquétipo da realidade, porque também esta não se sabe ao certo o que é, o que demonstra ou o que estará por detrás da aparente realidade, que se impõe aos nossos sentidos.

 

Será a realidade uma máscara? O pintor quer ver o que está por detrás da ou das máscaras, na sua intrincada complexidade.

 

E é com a iluminação de outros olhares que a obra se torna ainda maior, é com a comunicação entre a pintura que emerge e a apreciação que nós observadores fazemos ou sentimos com o que observamos, que se permite o diálogo.

Ricardo Petterman Laires não reflecte na pintura emoções, sentimentos ou memórias, ele evoca, e nós felizes apreciadores reflectimos e assim dialogamos melhor com ele e com o mundo.

A desordem e as contradições sentem-se bem presentes o que nos permite usufruir da verdadeira complexidade da vida, eliminando uma falsa sensação de arrumação, instigando à curiosidade e não a matando. Porque a pintura não deve assassinar a curiosidade.

Talvez por isso este artista plástico incorpore nas suas obras evocações, que representam um passado que emerge no presente, para com eles construir uma arte fortemente humana, concluindo nela o papel do homem/ mulher, cuja liberdade e identidade se confundem com os materiais que utiliza.

São ideias que se insinuam nos seus quadros, bem como a sobreposição de emoções dispostas em camadas diversas pelas cores de que se alimenta, criando cenários quase oníricos.

Tal como a literatura, a pintura serve para estimular a imaginação estabelecendo uma profunda relação de proximidade com os outros, levantando dúvidas para lá da contemplação.

Este pintor médico é sem dúvida um comunicador de emoções tocadas na tela.

Com a imaginação ao seu dispor, exprime talvez sem o saber a capacidade de viver ou sobreviver.

 

Leonor Duarte de Almeida

Médica Oftalmologista