In memoriam – Dr.ª Sílvia dos Anjos Azevedo

Dr.ª Sílvia dos Anjos Azevedo
(02-08-1932 / 26-12-2018)
“Memoria, in gratiam”

O falecimento da Sr.ª Dr.ª Sílvia Azevedo, sócia honorária da Sociedade Portuguesa Oftalmologia, foi muito sentida, tendo alguns dos seus colaboradores mais próximos, de um modo muito espontâneo, decidido escrever algumas palavras sobre este triste acontecimento. Palavras que reflectem bem a admiração que lhe tinham e a saudade que deixa.

Não tive contacto frequente e mais próximo com a Sr.ª Dr.ª Sílvia Azevedo, mas após ter lido o que foi escrito fico com uma sensação de ter perdido a oportunidade de melhor conhecer alguém de grande qualidade pessoal e profissional.

Mas penso que os seus discípulos, os seus amigos, enfim todos nós, não deixaremos cair no esquecimento a sua figura, a sua memória, importante no seu contributo para oftalmologia Portuguesa e para a nossa Sociedade.

– Manuel Monteiro Grillo

Iniciei o internato de Oftalmologia em 1988, no Hospital dos Capuchos, na equipa da Dr.ª Silvia Azevedo.
A sua exigência, rigor, disponibilidade para ensinar e respeito pelos doentes marcaram-me e marcaram muitos dos que com ela trabalharam.
Grande parte do que sou como oftalmologista a ela o devo.
Ensinou-me a operar passo a passo, com paciência, com método, com a perícia de brilhante cirurgiã que era.
Com os internos era exigente. Uma exigência que hoje lhe agradecemos. Sem o demonstrar, que o seu pudor e discrição não o permitia, tinha orgulho em todos nós! Desse tempo, na equipa da Dr.ª Silvia, estava a Paula Barbosa, a Isabel Prieto, eu, o Zé Roque, a Margarida Marques e o João Paulo Cunha.
E que orgulho todos nós sentimos por termos essa raiz. E que choque para todos nós a notícia da morte da Dr.ª Silvia.
Foram muitos os internos que formou, especialmente no estrabismo.
Anos mais tarde, pediu-me para lhe operar os doentes do consultório e assim fiz até agora.
Continuava, aos 86 anos, a trabalhar no seu consultório, como sempre fez, alheia aos vendavais que varreram a medicina. Foi uma figura ímpar da Oftalmologia que deixa muitas saudades.
Era um pouco distante, formal, reservada… mas tudo isso caia por terra em alguns momentos. Era outra pessoa quando falava ou estava nos Açores (era natural da Ilha do Pico), quando falava de arte, especialmente de música. Adorava ir ao São Carlos, à Gulbenkian, aos dias da música no CCB. Durante anos, no Natal, recebi um CD de ópera, de bailados ou de uma ou outra peça de que mais gostava. Adorava viajar e geralmente enviava-me um postal. Guardo com carinho postais do Irão, de Palmira (antes da guerra), do Perito Moreno, da Arménia…
Quando fui eleita Presidente da SPO disse-me “posso dar-lhe um abraço?!” …tinha lágrimas nos olhos “estou tão feliz”. Julgo que nunca a vi emocionada como naquele momento. Percebi como, na sua aparente distância, vibrava com o sucesso dos “seus internos”.
Convidei-a para Presidente Honorária do Congresso. Recusou e ameaçou faltar se eu insistisse. Não gostava de homenagens, não necessitava delas.
Sem lhe dizer, propus o seu nome para Sócia Honorária da SPO. Não teve como recusar. Ralhou-me um bocadinho. Tenho esperança que lá no fundo tenha apreciado o meu gesto.
Perguntava-me sempre como ia a adega e os vinhos. Infelizmente não consegui entregar-lhe as garrafas da 1.ª colheita, que este ano no Natal substituiriam os chocolates que sempre lhe oferecia.

Perdi uma Mestra e sobretudo uma Amiga.
No coração fica uma grande tristeza e muita gratidão.

Até sempre Dr.ª Silvia.
– Manuela Carmona

“Habito a Sombra e o Sol Morreu Comigo”, a frase é de Fernando Pessoa e vem no Livro do Desassossego. Adequa-se. Primeiro por estar onde está, no Desassossego! Foi o sentimento que se instalou em todos nós que privámos e convivemos de perto diariamente durante uma fase das nossas vidas, com a Sr.ª Dr.ª Sílvia Azevedo. Foi um desassossego inconformado, incrédulo, lívido de espanto, potenciado pela altura do ano que estamos a viver. Depois, porque sublinha a pessoa da Sr.ª Dr.ª Sílvia Azevedo. A Dr.ª Sílvia, como a tratávamos, habitava a sombra na sua plenitude. Na humildade do seu saber, na discrição do aparecer, no respeito pelo outro, no respeito do outro, na alegria das crianças e doentes que tratava, em tanta coisa – quase tudo, mas sobretudo, sei-o agora, no brilho dos olhos de todos nós. Era na sombra que se revelava!
Os “não se esqueça doutor: a mão foi o primeiro instrumento do Homem”, “contra a órbita pode afastar à vontade” e os “doucement doutor, doucement!”, eram-nos segredados ao ouvido na intimidade da sombra da mesa operatória! É na sombra da nossa memória que ecoam estas frases, ainda hoje, a todos nós ensinados pela Dr.ª Sílvia! É na nossa sombra de médicos, de oftalmologistas e de pessoas que está a Dr.ª Sílvia – ensinou-nos a ser!
Na sombra também estiveram as figuras e peças moldadas no barro com as suas mãos e cozidas no forno que, há muitos anos, teve em casa, na sombra estava o brilho das cores com que as pintava! Na sombra estiveram os prémios que lhe mereceram! Também nós fomos o barro da Dr.ª Sílvia, as nossas mãos, tantas vezes seguradas pelas suas, eram e são agora artífices da sua obra – na sombra! Regressando a Pessoa! Por isso, sem falsa modéstia e com o orgulho que me for concedido, diria que todos somos um pouco a Dr.ª Sílvia, são os genes da oftalmologia que assim o ditam! Por isso, a Dr.ª Sílvia sempre foi um bocadinho o nosso Sol e nós, outra vez sem falsa modéstia e com o orgulho que me for concedido, um bocadinho a Dr.ª Sílvia! E é por isso, que o nosso Sol foi com a Dr.ª Sílvia, outra vez na sombra e sem saber!
Não há por isso palavras que abarquem e exprimam a gratidão e o quanto devo à Dr.ª Sílvia! Mas há duas coisas que tenho a certeza a deixariam contente, na sombra. Pedir a Deus que a receba “doucement” até que a encontre de novo, e assinar este texto,

– José Roque
(Interno do Internato Complementar de Oftalmologia dos Hospitais Civis de Lisboa na Equipa da Sr.ª Dr.ª Sílvia Azevedo)

É com enorme saudade que escrevo sobre a Dr.ª Sílvia Azevedo, alguém que marcou de forma intensa e duradoura o meu percurso profissional. Minha orientadora de formação, foi com ela que aprendi as bases da minha actividade. O seu rigor e sobretudo a paciência infinita com que observava os doentes foram ensinamentos que nunca esquecerei, e se na altura ficava com “dores de cabeça” após sucessivas insistências e correcções das minhas observações, hoje agradeço essa perseverança pois contribuiu em muito para aquilo que hoje sou como oftalmologista.
Mulher multifacetada, muito discreta, mas excelente cirurgiã, sempre muito séria e reservada no seu dia-a-dia nos Capuchos, quando fora do seu habitat de rotina (como nas idas em Serviço aos Açores) se revelava alguém muito “compincha” e divertida.

Tantas histórias para contar….

Fico muito triste com o seu desaparecimento, mas irá perdurar para sempre na minha memória, e na daqueles muito mais novos a quem tento transmitir muito das suas normas e princípios.

Muito daquilo que eu sou a ela o devo.

Obrigada Dr.ª Silvia
– Isabel Prieto

A Senhora Dr.ª Sílvia Azevedo foi um dos seres humanos mais íntegros e honestos que tive a oportunidade de conhecer. Dedicada oftalmologista, trabalhou afincadamente no Serviço do Hospital de Santo António dos Capuchos até à data da sua jubilação. Foi uma tutora ímpar que deixou escola na oftalmologia portuguesa e à qual pertenço com orgulho. Simples na sua essência, exemplo de recato, seriedade, rigor e dignidade acreditava que cada ser era portador de uma mensagem. Atrevo-me a afirmar que a sua foi compreendida por quem teve o privilégio de trabalhar na sua equipa, que a mesma jamais será esquecida e que a sua escola não pertence ao passado, mas sim ao presente e ao futuro.

Que descanse em paz e permita a quem a conheceu perpetuar, com orgulho, todos os ensinamentos valiosos que transmitiu.
– João Paulo Cunha

Conheci a Dr.ª Silvia em 1990.
Tive o privilégio de ser sua interna.
Ficamos amigas.
Admiro-a sob ponto de vista profissional ético; moral…
Admiro-a como Pessoa.
Foi determinante na minha vida profissional e foi também médica da minha filha.

Descanse em paz.
Até um dia Dr.ª Silvia.

Para quem acredita é até um dia!
– Margarida Marques

Querida Dr.ª Sílvia

É com muita honra que faço este pequeno testemunho sobre uma mulher como Você, que com muito pesar, já não se encontra entre nós.

A Dr.ª Sílvia era uma mulher genuína, autêntica, determinada e intransigente para com os seus próprios princípios. Dotada de um rigor invulgar na sua vida profissional, a Dr.ª Sílvia era a Oftalmologista mais procurada pelas Mães protectoras e preocupadas.
Humilde na sua maneira de ser, mas nobre nos seus valores, nos quais lealdade, seriedade e responsabilidade eram alguns dos que posso enumerar.

Dr.ª Sílvia, uma profissional exigente não só consigo mesma mas com os seus colaboradores mais próximos, conseguindo desta forma fazer sobressair o melhor de cada um. Tornava assim, extraordinárias, as suas equipas comuns.

Foi uma grande Chefe e uma verdadeira líder pela enorme capacidade de ensinar. Por ser uma pessoa criteriosa, cuidadosa, credível, dedicada, disciplinada diligente, prudente e acima de tudo, muito transparente.

Pessoalmente, a Dr.ª Sílvia foi uma verdadeira fonte de inspiração. Para além da sua dedicação à Ciência, era cativada pela literatura e escrita, por música e viagens longas a locais históricos distantes – entre outros interesses pós laborais que connosco partilhava com entusiasmo.

O seu carisma, o seu respeito pelos outros e o seu empenho foram admiráveis!

Foi uma honra ter tido a oportunidade de fazer parte da sua Vida.
Um bem haja!

Jamais a esquecerei Dr.ª Sílvia!
– Paula Cogumbreiro Barbosa