Revista SPO N2 2013 WEB - page 154

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Revista da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia
Durante muitas décadas o tratamento de eleição para a
candidemia e endoftalmite fúngica foi a anfotericina B, no
entanto nos últimos anos diversos outros fármacos têm sur-
gido como opção terapêutica, com melhores resultados ana-
tómicos e funcionais, bem como menores efeitos colaterais.
Relato de caso
Doente do sexo masculino, 65 anos, raça branca, recor-
reu ao serviço de urgência por diminuição gradual da acui-
dade visual bilateral, associada à moscas volantes, desde há
1 mês. Referia ainda ligeira dor ODE.
Como antecedentes pessoais relevantes referiu ter sido
submetido à cirurgia abdominal há 45 dias, hemicolectomia
por divertículos. A cirurgia foi complicada por fístula ente-
rocutânea, o que levou o doente a novo internamento, onde
esteve sob antibioterapia prolongada, nutrição parenteral e
cateter intravenoso.
Nega outras doenças concomitantes.
Ao exame oftalmológico:
Acuidade visual corrigida ODE de 3/10. À biomicros-
copia apresentava queratite estriada ODE, tyndall ++/4+
ODE, TODE 20mmHg. Pseudofaquia bilateral.
Fundoscopia: OD vitrite +++/4+, com floculações
vítreas, com difícil visualização das estruturas retinianas.
OE vitrite ++/4+, vários focos de corioretinite, com aspecto
em manchas de algodão, sendo a maior localizada junto à
arcada temporal inferior, e algumas hemorragias intrarreti-
nianas. (Figura 1)
Perante o caráter indolente da infecção, associado ao
quadro clínico fundoscópico sugestivo de endoftalmite
fúngica, mais os fatores de risco para esta patologia, pro-
pusemos o diagnóstico de endoftalmite endógena fúngica.
O doente foi internado, e antes da instituição da terapéu-
tica foram realizadas hemoculturas e urinocultura, as quais
foram negativas. Ao pesquisar o prontuário do doente,
verificamos uma cultura positiva para Candida albicans da
ponta do cateter, a qual, na altura não foi valorizada. Diante
das lesões características mais a cultura positiva, foi então
realizado o diagnóstico presuntivo de endoftalmite endó-
gena por Candida.
O doente recusou o tratamento com injecções intra-
-vítreas bem como a possibilidade de vitrectomia diagnós-
tica, pelo que foi decidido então tratá-lo com voriconazol
oral, o qual apresenta uma boa disponibilidade oral, bem
como intra-vítrea.
Iniciou-se o tratamento com dose de ataque de 400mg
de 12/12h, seguido de 200mg de 12/12h, com melhoria
substancial após 5 dias, apresentando MAVODE 5/10 e
redução da vitrite. Manteve-se o tratamento por 3 semanas,
após esse período os meios encontravam-se transparen-
tes, com resolução da coriorretinite. A função hepática foi
monitorizada regularmente. Foi realizado angiografia após
2 meses que demonstrou não haver lesões em atividade. A
MAVC era de 10/10 ODE. (Figura 2)
Discussão
Embora as endoftalmites fúngicas endógenas sejam
raras dentre as causas de infecção intra-ocular, constituem
uma patologia de grande importância clínica devido ao
seu potencial devastador. A Candida albicans, a principal
causa de endoftalmites fúngicas, é um habitante normal do
trato gastrointestinal e regiões mucocutaneas, e o seu cres-
cimento é normalmente inibido pelas bactérias intestinais.
A antibioterapia prolongada conduzirá a alterações da flora
intestinal, propiciando a proliferação destes microorganis-
mos e sua disseminação hematogénica. E o fato de ser um
Fig. 1 |
Vitrite ODE, com dificil visualização das estruturas re-
tinianas.
Audrey Sampaio, Pinto Ferreira
Capa...,144,145,146,147,148,149,150,151,152,153 155,156,157,158,159,160,Verso das Costas,Costas
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