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De Olho na Cultura

Camões, a perda de um olho e a visão da modernidade

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Cultura Interesse Público Qualidade de Vida e Impacto Social História da Oftalmologia
Camões, a perda de um olho e a visão da modernidade

Luís Vaz de Camões (c. 1524–1580), considerado o Poeta Maior da língua portuguesa, conta, entre os vários episódios lendários da sua vida, que terá sofrido um acidente que condicionou a perda de visão de um dos olhos. Relata-se que a lesão foi causada por uma lança durante uma campanha militar em Ceuta, e que a partir daí Camões viveu com a marca visível dessa perda.

Apesar dos factos não estarem indubitavelmente esclarecidos, a imagem do “poeta de um olho só” foi-se consolidando e entrou definitivamente no imaginário coletivo e ganhou um peso cultural profundo. Em retratos atribuídos a Fernão Gomes, como o célebre Retrato a Vermelho, Camões surge representado com o olho direito cego.

Ao longo dos séculos, essa imagem de fragilidade física combinada com a do génio criador serviu como metáfora de sacrifício, de superação e de uma “visão” que, apesar da limitação física, permanecia imensa no plano poético. A cegueira parcial nunca apagou a sua capacidade criadora: Os Lusíadas, a sua obra máxima e símbolo da identidade literária e cultural portuguesa, foram escritos já depois desse episódio, prova que a visão interior de Camões superava a falta de visão física.

No século XVI, não existiam soluções médicas ou estéticas capazes de devolver a aparência natural de quem perdia um olho. A lesão ocular era uma marca visível e irremediável, frequentemente associada a um estigma social importante.

Entretanto a Oftalmologia evoluiu de forma notável e hoje, com novos tratamentos médicos e cirúrgicos e estratégias de cuidados e prevenção integrados permite-se melhorar muito o prognóstico funcional dos olhos que sofreram traumatismos. E para os casos em que o trauma é irreversível e conduz à perda do globo ocular, existem tratamentos reabilitadores para amenizar o impacto da perda de um órgão tão relevante na imagem individual. Destacam-se as próteses oculares externas, que são dispositivos personalizados, criados por profissionais especializados – os ocularistas.

Hoje, graças ao trabalho dos ocularistas, em conjunto com os oftalmologistas, é possível confecionar próteses oculares externas altamente personalizadas e quase indistinguíveis de um olho real. Estas próteses, produzidas com resinas acrílicas biocompatíveis, são moldadas individualmente para a cavidade orbitária e pintadas à mão com minúcia técnica e artística, reproduzindo as nuances de cor da íris, tonalidades da esclera e até pequenos vasos sanguíneos e a profundidade das estruturas oculares. O resultado é uma integração estética que pode passar despercebida mesmo a um olhar mais atento.

A evolução destas próteses ao longo dos séculos foi longa: dos rudimentares olhos artificiais encontrados em sítios arqueológicos com mais de quatro milénios, passando pelos olhos de vidro desenvolvidos na Europa do século XIX, até às modernas próteses acrílicas, assistimos a um progresso extraordinário.

Hoje, para além da função estética, estas próteses têm um papel essencial na autoestima, qualidade de vida, no bem-estar psicológico e na reintegração social das pessoas que perderam um olho. Não restituem a visão, mas sim a dignidade do olhar — algo que, no século XVI, Camões nunca poderia ter imaginado.

Assim, a história do poeta e a história da oftalmologia cruzam-se de forma simbólica. A perda de um olho, que em Camões se transformou em mito literário, é hoje enfrentada com soluções científicas, técnicas e artísticas que permitem devolver não apenas a aparência, mas também a confiança. O percurso das próteses oculares externas é mais uma prova de como a visão continua a ser um dos pontos de encontro entre ciência, arte e cultura.

Bibliografia

- Severim de Faria, M. Vida de Camões, in Discursos Vários Políticos (1624).

- Mariz, P. Vida de Luís de Camões (c. 1613).

- Serrão, V. e Coutinho, B.X. – Estudos sobre a iconografia de Camões.

- Conroy, B.F. “A History of Facial and Ocular Prosthetics.” Facial Plastic Surgery, 1993.

- Modugno, A. et al. “Ocular prostheses in the last century: a retrospective analysis of 8 018 patients.” Eye, 2013.

- Ocularists Association. “Ocular Prosthesis: A Literature Review.”

Autora: Cátia Azenha

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