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De Olho na Cultura

Tomás de Aquino “Visio Beatifica”

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Cultura Interesse Público Qualidade de Vida e Impacto Social História da Oftalmologia
Tomás de Aquino “Visio Beatifica”

A visio beatifica — a visão direta de Deus na eternidade — é apresentada por Tomás de Aquino como o ponto culminante da existência humana. Nessa visão, não há mediação, comparação ou analogia: o intelecto é elevado pela lumen gloriae para reconhecer Deus tal como Ele é. Ver, nesse contexto, não significa apenas captar imagens, como fazemos no quotidiano; significa compreender plenamente, sem erro, sem fragmentação, sem distância. E porque o conhecimento, para Tomás de Aquino, está sempre unido ao amor, esta visão é também um movimento afetivo total: ao ver Deus, a alma ama-O com toda a sua potência. Assim, ver torna-se amar, e amar torna-se a plenitude da felicidade.

Este horizonte espiritual atribui ao olho um estatuto simbólico particular. O olho não é apenas um órgão sensorial. É a porta entre o mundo exterior e o mundo interior, entre aquilo que existe e aquilo que é reconhecido, interpretado, amado ou temido. A visão é o primeiro contacto com o outro e, muitas vezes, com o Mistério. Não surpreende, portanto, que ao longo da história, desde os vitrais góticos ao retrato renascentista, a cultura tenha usado a imagem da luz e da visão como metáfora de conhecimento, revelação e presença divina.

Neste contexto, a oftalmologia adquire um significado que ultrapassa o clínico. Tratar um olho é restaurar muito mais do que um sentido: é restituir horizonte, identidade e relação. Quando um doente volta a ver, recupera não apenas formas e cores, mas o lugar que ocupa no mundo — os rostos que ama, os gestos que reconhece, os caminhos que percorre. Ao cruzar história, arte, filosofia e medicina, recorda-nos que preservar a visão é também preservar a experiência humana do sentido. Ver é participar no mundo e abrir-se à possibilidade do transcendente — seja ele nomeado como Deus, beleza, verdade ou encontro com o outro.

Assim, do consultório à catedral, da retina à alma, a visão é o fio que liga o visível ao invisível, o corpo à interioridade, a ciência ao mais íntimo da condição humana.

Autora Inês Leal

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